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doses da vida 1

Engraçada uma coisa que acontece comigo: sinto necessidade de escrever quando estou triste. É um desabafo pessoal, algo que não sei se alguém além de mim irá ler. Não escrevo para ser lido, apesar de escrever para você. Apesar de querer te falar o que está aqui, preso dentro de mim, lá no coração.

O que está acontecendo agora é que eu achei que tinha superado a fase “você”. Tá com aspas pela simples razão de que acredito que vai passar. Se não é para a vida inteira, é uma fase, e eu, hoje, quero alguém para a vida inteira, mesmo que não dure toda a minha vida. O que vivemos (até hoje)  é uma fase, mas lembranças serão eternas na vida. O que passamos viverá para sempre na minha memória, fazendo parte da minha história e da minha vida. Eu sou quem sou hoje por ter passado por muita coisa desde quando você invadiu a minha vida.

Sim, você invadiu a minha vida. Entrou pela porta da frente, sem um convite, tomando conta da sala e mudando a mobília que existia no meu coração. Porta-retratos, cartas, livros, vestígios de um amor passado sumiram. Desapareceram. E isso aconteceu depois de você tomar conta do que eu sinto, depois de você habitar meus sonhos, até aqueles em que estou acordada. Tudo aconteceu logo depois da primeira vez que ouvi o “- Alô” no telefone. Você entrou como um furacão. E saiu pela porta como uma ventania, mexendo em tudo, mas não levando nada.

Não levou as fotos, que continuam me atingindo, me incomodando, me doendo e me fazendo lembrar os momentos cheios de amor, cumplicidade e admiração. Não levou os livros, e ainda leio suas palavras neles. Não levou o cheiro, que continuo sentindo em cada pessoa que conheço querendo que seja você. Não levou o carinho, o tesão, o amor e a paixão. E ainda deixou a saudade aqui comigo.

A minha vida andou depois que fugi da sua companhia. Queria você por inteiro, cansei de me contentar com uma parte e querer me convencer que era melhor um pouco do que nada. Resolvi que queria algo quente,  algo por inteiro, alguém que seja só para mim. Acreditei que fugi e enterrei tudo o que mexia comigo em relação a sua presença, moreno. Mas me enganei, e, quando você acha que já passou, já superou, vem a vida e traz tudo de volta. É como uma avalanche, entende? Vem com força, tirando tudo da frente e destruindo tudo o que estava em pé. E ainda é triste.

agonia

sabe aqueles dias em que você está com friozinho na barriga, ansiosa? Mas não é aquele ansiedade boa, é aquela como se vc estivesse prevendo que algo ruim pode acontecer?

Sensação horrível, eu sei…

Você sabe que algo irá acontecer e não sabe o que é, não consegue entender muito bem porque daquela sensação. Dizem que é sexto sentindo, e eu, sinceramente, não sei.

só sei que não gosto nem um pouco desta sensação. Não gosto mesmo.

continuando…

Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio de Mário Quintana: “Para estar ao lado sem pesar com a presença”.

Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.

Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura.

Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.

Ah, pesa. Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados.

Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.

Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone.

Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.

Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho.

Pessoas estão jantando.

Pessoas estão preocupadas.

Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo.

Pessoas estão chorando.

Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.

Pessoas estão se amando.

Avise que está a caminho. Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.

Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá.

Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade.

Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.

Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?

Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios.

Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela.

Quando mando flores, vou junto com o cartão.

Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.

Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância:

é só um outro tipo de abraço.

(Martha Medeiros)

Tudo tem um início

Quando não temos nada de prático nos atazanando a vida, a preocupação passa a ser existencial. Pouco importa de onde viemos e para onde vamos, mas quem somos é crucial descobrir.

A gente é o que a gente gosta. A gente é nossa comida preferida, os filmes que a gente curte, os amigos que escolhemos, as roupas que a gente veste, a estação do ano preferida, nosso esporte, as cidades que nos encantam. Você não está fazendo nada agora? Eu idem. Vamos listar quem a gente é: você daí e eu daqui.

Eu sou outono, disparado. E ligeiramente primavera. Estações transitórias.

Sou Woody Allen. Sou Lenny Kravitz. Sou Marilia Gabriela. Sou Nelson Motta. Sou Nick Hornby. Sou Ivan Lessa. Sou Saramago.

Sou pães, queijos e vinhos, os três alimentos que eu levaria para uma ilha deserta, mas não sou ilha deserta: sou metrópole.

Sou bala azedinha. Sou coca-cola. Sou salada caprese. Sou camarão à baiana. Sou filé com fritas. Sou morango com sorvete de creme. Sou linguado com molho de limão. Sou cachorro-quente com mostarda e queijo ralado. Do churrasco, sou o pão com alho.

Sou livros. Discos. Dicionários. Sou guias de viagem. Revistas. Sou mapas. Sou Internet. Já fui muito tevê, hoje só um pouco GNT. Rádio. Rock. Lounge. Cinema. Cinema. Cinema. Teatro.

Sou azul. Sou colorada. Sou cabelo liso. Sou jeans. Sou balaio de saldos. Sou ventilador de teto. Sou avião. Sou jeep. Sou bicicleta. Sou à pé.

Você está fazendo sua lista? Tô esperando.

Sou tapetes e panos. Sou abajur. Sou banho tinindo. Hidratantes. Não sou musculação, mas finjo que sou três vezes por semana. Sou mar. Não sou areia. Sou Londres. Rio. Porto Alegre.

Sou mais cama que mesa, mais dia que noite, mais flor que fruta, mais salgado que doce, mais música que silêncio, mais pizza que banquete, mais champanhe que caipirinha. Sou esmalte fraquinho. Sou cara lavada. Sou Gisele. Sou delírio. Sou eu mesma.

Agora é sua vez.

Era esse o texto. Putz, terminar dizendo que sou Gisele foi de um atrevimento… Mas entendo o que eu queria dizer: na minha fantasia, se eu fosse belíssima seria como ela, esportiva e simples. No mais, sigo sendo tudo o que listei e mais.

Ontem, assistindo ao Saia Justa, curti o último bloco, em que a Monica Waldvogel sugeriu um exercício semelhante: pediu pra cada uma das participantes do programa citar três coisas que fazem valer a pena estar vivo. Ela se inspirou numa cena do filme Manhattan, de Woody Allen, em que ele faz uma lista das coisas pelas quais vale a pena levantar de manhã. Well, a minha lista seria interminável. Além de tudo o que já foi dito no texto acima, eu ainda incluiria os livros do Philip Roth, Fernando de Noronha, os Beatles, estar entre meus amigos íntimos, dançar, alguns pensamentos do filósofo romeno Cioran, uma taça de vinho tinto em frente à lareira no inverno, filmes com o Javier Bardem, dirigir meu EcoSport com o som bem alto, sexo, sexo, sexo… e beijos!

beijos!

beijos!

Até breve!

 

(Martha Medeiros)

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